quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

Capítulo Dez


- O ursinho ou o diabinho vermelho? – falou Arthur, levantando os dois bichinhos de pelúcia na frente dele.



Eu grunhi. O ursinho era realmente adorável.
- Eu não sei, Arthur. Eu não a conheço muito bem.
O sorriso dele desapareceu.
- O ursinho é, sem dúvida, mais romântico – concluiu, jogando o diabo de volta na prateleira. – Por que eu ainda te pergunto sobre bichinhos de pelúcia? Você odeia essas coisas!
“Odiava. Eu provavelmente me derreteria caso Micael me desse um lindo ursinho de pelúcia.”
- Isso está sendo uma tortura para você, não é? – perguntou ele, rindo. – O maior dos pesadelos: fazer compras para o Dia dos Namorados.
Então ele achava que era por isso que eu estava tão irritada? Pelo menos, Arthur não percebera nada: eu já estava farta de rodar pelo shopping procurando o presente absolutamente perfeito… para Pérola.
- Ele tem olhos mais atraentes que os do diabo – comentei, entregando o ursinho para Arthur.
- Você acha mesmo? – Arthur estudou o rosto do brinquedo muito seriamente.
- Você já tá pronto? – falei, tentando acelerar a decisão. Nesse momento, uma mulher que corria para a seção de cartões deu um esbarrão em mim e eu tropecei. O lugar parecia um campo de batalha naquele dia.
Arthur olhou indignado para ela.
- Você está bem? – perguntou ele, virando-se para mim com um olhar de preocupação. Ele colocou a mão sobre o meu ombro e, mais uma vez, fiquei atenta à sensação do toque e peso de sua mão. Um arrepio subiu pela minha coluna até chegar na nuca.
O que está acontecendo comigo? Esse tipo de sentimento deve ser reservado apenas para o Micael. O toque dele pode fazer isso comigo, não o de Arthur.
“Era como Sophia dizia”, pensei. “Algum tipo de ego machucado, agora que eu não posso tê-lo. Agora que eu não sou mais a primeira. Agora que ele está apaixonado por outra garota.” Era a única explicação que fazia algum sentido.
- Tô bem – assegurei a ele. – Está muito cheio. Talvez nós devêssemos ir embora agora que você já tem tudo.
Ele assentiu com a cabeça, observando novamente o ursinho que havia colocado na cesta da loja e dando uma olhada na sacola que segurava com a outra mão. Caminhamos para o final da longa fila do caixa.
- Bem, eu já tenho os bombons, o bichinho de pelúcia, o papel de presente e as fitas para embrulhar – disse Arthur.
- E o cartão que você demorou uma hora para escolher – lembrei a ele. – Acho que está tudo resolvido.
Virei a cabeça e avistei um monte de balões a gás com mensagens de amor. “Minha paixão.” “Só quero você.” “Eu te amo.” Há duas semanas atrás eu tiraria uma foto e escreveria uma legenda sarcástica sobre o quanto era ridículo ver aquelas palavras num balão. Mas agora eu queria os balões! Eu queria tudo naquela loja!


- Você não acha que eu devia comprar algo mais pessoal para ela? - perguntou Arthur.

"Não, eu não acho. Você só está saindo com ela há uma semana e meia. Ela não merece um tipo de presente mais pessoal que, até hoje, você só havia comprado para mim."
- Bem, talvez algo pequeno - concordei, percebendo que ele estava realmente falando sério sobre isso. - Se você acha que deve.
"Ele deve gostar muito de Pérola. Talvez ele até esteja apaixonado."
Ele me fitou por um segundo, então me puxou para perto dele, no momento em que um grupo de mulheres enlouquecidas passou aos solavancos em direção ao estande vermelho, rosa e branco abarrotado de chocolates.
- Desculpe se eu fui muito brusco.
Dávamos uns passinhos para frente conforme a fila andava.
Arthur sorriu de maneira sem graça.
- É, eu imagino que você e Micael nem vão trocar presentes, não é?
- Bem, ele não curte muito esse tipo de coisa – justifiquei rapidamente. "Na defensiva, na defensiva." - As pessoas expressam os seus sentimentos de maneiras diferentes, Arthur - falei o meu mais novo lema, minha opinião oficial sobre o "assunto Dia dos Namorados". Mas então por que aquilo soava tão falso?
Ele deu de ombros:
- Então me ajuda a pensar o que mais eu posso dar pra Pérola.
Finalmente chegamos até o caixa da loja, e alguns minutos depois, eu estava suspirando aliviada por ter saído daquele lugar.
- Por que não damos uma volta e vemos se alguma coisa chama a nossa atenção? - sugeri, enquanto avançávamos pelo meio da multidão. - O que ela gosta?
- Ela é uma excelente artista - falou ele. - Ela adora desenhar. Talvez eu devesse comprar algum material de pintura. Ah, isso é tão difícil... - desabafou. - Eu nunca tive nenhuma dificuldade para comprar algo para você.
Nesse momento, nós havíamos chegado ao enorme poço dos desejos, bem no centro do shopping. Arthur retirou uma moeda de seu bolso e jogou lá dentro. Ficamos observando todas as moedas no fundo do poço.
- Qual foi o seu desejo? - perguntei suavemente.
- Não posso falar, bobinha - disse ele. - Senão não se realiza.
Eu tinha certeza de que era algo relacionado a Pérola.
- Aqui - disse ele, passando uma moeda para mim. – Faça um pedido.
Eu peguei a moeda, que ficou bem quente em minha mão, e fechei os olhos. "Eu quero…"
"O que eu quero?"
- Ah, eu esqueci - disse ele. - Fazer pedidos não faz muito o seu gênero.
Por que será que aquilo me magoou? Nunca havia feito o meu gênero mesmo e Arthur sabia disso. Então por que ele tinha me dado aquela moeda?
- Eu vou guardar para a passagem de ônibus - brinquei, jogando-a dentro do bolso da minha calça.


- Pérola e eu estamos ficando íntimos - falou Arthur, sentando-se num banco diante do poço. - Nós podemos nos considerar um casal agora. Tudo aconteceu tão rápido, sabe?

Sentei-me ao lado dele, com uma sensação de aperto dentro do peito.
- Uau. Que bom, Arthur.
- Eu gostaria de saber o que mais posso dar a ela – continuou ele.
- Então foi isso que você pediu - brinquei. - Para nós, é fácil comprar presentes um para o outro porque nos conhecemos muito bem. E nós amamos as mesmas coisas.
Ele olhou para mim, depois para o chão.
- Sabe, tinha uma música tocando no lugar em que eu e Pérola fomos, em nosso primeiro encontro, que ela adorou. Eu poderia dar aquele cd.
Agora eu também estava fitando o chão.
- Péssima idéia? - Arthur me perguntou ansiosamente.
- Não, é perfeito - eu quase sussurrei. - É encantador.
Arthur sorriu, se levantou e agarrou suas sacolas.
- Vem. Vamos até a loja de cd’s.
Também me levantei e enfiei as mãos no bolso. Pude sentir a moeda, ainda com o calor da mão de Arthur.


Vinte minutos depois, Arthur tinha uma outra sacola e uma expressão de alívio.

- Quer dar uma parada na Book Nook? - falou, apontando para a minha livraria predileta.


Eu sorri. Arthur sabia que eu nunca ia ao shopping sem ficar um longo tempo bisbilhotando todos os livros que eu gostaria de comprar. Entramos. Primeiro eu dei uma olhada nos lançamentos, depois fomos para a seção de jornalismo no fundo da loja.

Subitamente eu fiquei paralisada. Micael estava parado no corredor, virado de costas para nós; ele estava segurando o livro que eu havia dito a ele que estava doida para comprar. Dei um giro e agarrei Arthur, puxando-o para trás da pilha de livros mais próxima.
- O que você está fazendo? - ele gemeu.
- Shh - sussurrei, colocando o dedo na frente dos meus lábios. Nos esprememos atrás dos livros, com os ombros grudados. Mais uma vez eu estava bastante atenta ao toque de Arthur, atenta à sensação de ter sua mão nas minhas costas. Olhei para ele, e suas bochechas estavam vermelhas, seus olhos mais escuros que de costume. Ele me fitava com aquela mesma expressão que tivera no dia em que revelou seus verdadeiros sentimentos por mim.


Mas esse não era o caso agora. Ele estava claramente interessado na Pérola. Tudo o que ele sentia por mim naquele momento era preocupação. Além do mais, apenas uma psicótica o teria agarrado e jogado atrás dos livros sem nenhuma explicação.

- É o Micael - sussurrei, dando uma espiada ao redor. Ele não estava mais em pé no corredor. Virei a cabeça para o outro lado e dei uma bisbilhotada. Agora Micael estava no caixa da loja, comprando o livro.
Eu o observei indo embora, então me levantei. Meus joelhos doíam por ter ficado agachada. Arthur também se levantou, me olhando como se eu estivesse maluca.
- O que foi tudo isso? - perguntou ele.
- É, é estúpido, mesmo - gaguejei. - Eu vi Micael lá atrás e imaginei que ele estivesse comprando algo para mim pelo Dia dos Namorados. Eu não queria que ele me visse e acabasse a surpresa.


De repente, aquilo parecia pouquíssimo relevante. Eu ainda estava tentando controlar as batidas do meu coração e fazer com que minhas mãos parassem de tremer. Ter ficado tão perto de Arthur havia causado algo muito estranho em mim. Algo bem diferente de "sentimento-por-um-melhor-amigo". Meu pescoço não estava acostumado a sentir arrepios só porque havia ficado perto dos lábios de Arthur.

Arthur balançou sua cabeça.
- Desde quando você se comporta desse jeito por causa de um cara?


- O quê? - perguntei, engasgando. "Peraí, ele está falando do Micael", percebi aliviada.

- Ok, foi bobo - admiti, passando os dedos sobre a capa de um livro no estande de promoções perto de mim. Meus dedos ainda estavam tremendo um pouco, mas meu pulso estava lentamente voltando ao normal. - Mas eu só fiquei surpresa de vê-lo comprando um presente para mim, só isso.
Eu havia contado a Micael o quanto eu queria aquele livro e que não tinha dinheiro para comprá-lo porque era uma edição de capa dura.
- Mas tudo bem. Afinal, é seu namorado - falou e em seguida bateu a mão em sua testa. - Oops, eu já ia me esquecendo. Vocês dois não acreditam nesse lance de comprar presentes, ou em qualquer outra coisa romântica.
- Não fique tão certo disso - falei zangada, endireitando a coluna. - Ontem ele até nos chamou de casal. Ele também tem um lado romântico… só não gosta de mostrá-lo muito.
- Um lado romântico? - Arthur soltou uma gargalhada, seus dentes brancos brilhavam. - Isso não vai contra tudo em seu artigozinho?
Eu vacilei.
- Eu não… isso não é… - gaguejei, depois soltei um suspiro. - Esqueça, tá bem? - falei e dei as costas para Arthur, envergonhada das lágrimas que escorriam dos meus olhos. - Podemos ir pra casa?
- Lua, eu não quis…
Olhei para ele, e ele se calou. Saímos da livraria num silêncio absoluto.
Sophia havia errado. Esse lance com o Arthur não tinha nada a ver com ciúmes ou com meu ego. Era muito mais do que isso. Eu havia mudado. Tudo estava diferente. O modo como eu me sentia em relação a namoros, romance, bichinhos de pelúcia, cartões de amor e… Arthur.



***


"É válido cobrar uma taxa para participar da banda da escola? E como podemos comparar o valor dessa experiência com, por exemplo, a oportunidade de integrar o time de handebol?"
Olhei fixamente as palavras até elas ficarem desfocadas sobre a página, então amassei o papel e joguei-o no chão onde os restos das minhas últimas vinte tentativas já formavam uma pilha.
Desde que Micael havia se referido a nós como um casal, eu não conseguia escrever uma frase de um artigo sem surtar imaginando qual seria a opinião dele sobre o meu texto.
Arranquei uma página em branco do meu caderno e tentei novamente, esforçando-me para captar o estilo de escrever de Micael. Mas isso soava tão forçado, tão "outra pessoa"…
"É impossível", pensei frustrada, fitando o nada.
- Querida? Você está bem?


Levei o olhar para a porta do meu quarto. Minha mãe me observava com a testa franzida.

- Tô bem - abri um sorrisinho para ela. - Só tem… umas coisas acontecendo.
- Que tipo de coisas? - perguntou ela, sentando-se ao meu lado na cama.
- Eu não sei - gemi. - As coisas com o Micael estão indo super bem, mas eu não tenho certeza se nós temos muito em comum.
- Você quer dizer, como você e Arthur têm - ela sorriu para mim.
"Por que as mães sempre sabem tanto? Eu mal contei a ela sobre Micael, apenas disse que nós estávamos saindo juntos e que eu realmente gostava dele."
Concordei com a cabeça.
- É estranho, mas eu sempre pude conversar com Arthur sobre jornalismo também, ainda que isso não fosse algo muito importante na vida dele. E do mesmo modo como eu gosto de ficar com Micael, não está sendo confortável como estar junto de Arthur. Micael e eu não nos divertimos juntos de fato, sabe?


- Bem, querida - ela falou gentilmente -, Micael não é o Arthur. As coisas serão diferentes com ele. Mas você também não disse que ainda não havia mostrado a ele as coisas de que gosta? Como quadrinhos, boliche, fliperama e um monte de batatas fritas? Talvez vocês se divertissem juntos se fizessem as coisas de que gosta.

Ela estava certa.
"Obrigado, mas eu realmente tento evitar essas coisas gordurosas…"
Ok, então ele não gostava de batatas fritas. Mas assim que visse todos aqueles quadrinhos incríveis da convenção, ele definitivamente entenderia porque eram legais. Ele até poderia se tornar um grande fã, e então ele e Arthur teriam algo em comum também. E que cara não gosta de fliperama e boliche?
"Micael não é o Arthur."
O Garfield miou.
- É a minha deixa - falou minha mãe, levantando-se. - Venha conversar mais tarde se precisar.


- Obrigada, mãe - falei enquanto ela saía. Depois pulei para agarrar o telefone. Era Pérola.

- Eu estava pensando se você não poderia me dar um conselho - disse ela - sobre o que comprar para Arthur pelo Dia dos Namorados.
Prendi a respiração por uns segundos. Por acaso isso era algum tipo de teste? Porque eu já estava quase chegando no meu limite. Micael e eu não tínhamos muito em comum além do jornalismo, mas mesmo assim eu não precisava consultar ninguém sobre o que dar a ele no Dia dos Namorados. Eu estava planejando dar-lhe um diário com capa de couro e uma caneta bacana.


- Bem - falei lentamente, enquanto sentava em minha cadeira -, o que você estava pensando?

- Eu não sei - confessou Pérola. - É por isso que pensei em te ligar. Quer dizer, afinal você o conhece melhor do que qualquer um.
Aquelas palavras foram como dardos sendo lançados sobre mim ao acaso, sendo que a última frase havia acertado na mosca.
"Melhor do que qualquer um… " Será que isso ainda era verdade?
- Você sabe que ele gosta de boliche - falei, batendo meus dedos sobre a mesa. - E videogames. E… histórias em quadrinhos.
- Ahã. Infelizmente - ela deu uma pausa. - Deu pra perceber o quanto eu odiei cada minuto lá no Bowl-a-Rama?
- Hã? Eu sabia que você não estava muito animada - falei. - Mas odiar?
- Por favor, não conte a Arthur. Tenho certeza de que ele ficaria magoado, mas eu não ligo muito para aquelas coisas.


- Ok, então você não irá dar a ele um daqueles pares de sapatos horrorosos para boliche.

Pérola soltou uma gargalhada.
- Sem chance.
- E que tal um vídeo? Ele adora essas comédias absurdas – sorri ao me lembrar de como era engraçada a imitação que Arthur fazia do Monthy Python.
- Eu sei - disse Pérola. - Ele tem um excelente senso de humor, até mesmo com todas aquelas piadas sem-graça que vive contando.
Piadas sem-graça? Essa era uma das melhores qualidades de Arthur! O que a Pérola via nele se não conseguia apreciar o quanto ele era engraçado?
- Eu não sei mais o que sugerir - falei.
- Deve estar parecendo que eu quero acabar com o Arthur - falou ela. - Mas eu gosto muito dele. Ele é… ele é tão doce.
É, doce, e engraçado, e maluco, e aventureiro, e milhares de outras coisas que Pérola não apreciava.
"Pare com isso", eu me repreendi. "Se Pérola e Arthur estão felizes juntos, não é da minha conta julgar nenhum dos dois."
- Eu tive uma idéia - contei a ela. - Por que você não desenha algo para ele? Arthur falou que você é uma ótima artista.
- Mesmo? Ele falou?
- É. Tenho certeza de que ele gostaria se você fizesse um desenho ou um quadro, sabe, especialmente para ele - respondi, enfiando os meus dedos no carpete. Já podia imaginar a alegria de Arthur ao ver o desenho, o modo como os seus olhos enrugariam nos cantos com o enorme sorriso que tomaria conta de seu rosto.
"Eu estou fazendo a coisa certa", disse a mim mesma, torcendo minhas duas mãos sobre o meu colo.
- Obrigada, Lua, é uma excelente idéia.
- De nada - respirei.
- Ok, tchau, e obrigada novamente.
- Ahã. Tchau.
Ouvi satisfeita o barulho do telefone sendo desligado e, imediatamente, cobri o rosto com as mãos.


Si tiver alguem Lendo,Comenta!

2 comentários:

  1. Gosto mt da web...só acho q eles ja estão demorando a ficar juntos...kkkk mas ta bacana!!!

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  2. to lendo e amando é uma das melhores webs q eu ja li so que eu tambem acho q ta demorando muito pra eles ficarem juntos =(

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